Em seu livro O Jesus que eu nunca conheci o escritor Philip Yancey conta uma história narrada a ele por um amigo que trabalha com pessoas marginalizadas. Esse amigo foi procurado por uma prostituta que, doente, contou não ter dinheiro para comprar comida para a filha. Chorando copiosamente, revelou que alugava a garotinha de dois anos de idade para homens interessados em perversões sexuais, a fim de sustentar o vício das drogas. Disse-lhe que ganhava mais alugando a menina do que em uma noite inteira de programas. O amigo do escritor, horrorizado com o relato e sem saber o que dizer à mulher, sugeriu que procurasse uma igreja em busca de ajuda.
| — Igreja! Por que eu iria a uma igreja? Já me sinto terrível o suficiente. Eles vão fazer com que me sinta ainda pior. |
| Rio de Janeiro, RJ | Plunct-plact-zum No último mês de junho, a dublê de cantora Simony, ex-astro infantil do extinto programa global Balão Mágico, foi capa da revista masculina Sexy. A nudez da antiga colega do boneco Fofão trouxe à baila uma discussão: como deve ser o testemunho dos artistas evangélicos? Devem abandonar a carreira após a conversão, caso ela seja contrária aos ensinamentos bíblicos? Para muitos, a seqüência de palavras “artista evangélico” já denota um problema. Por esse ângulo, eles devem primeiramente ser “evangélicos” e, depois, “artistas”. Ou seja, os trabalhos artísticos devem passar pelo crivo de uma ética que também foi transformada. Contudo, muitos pastores e líderes acabam mostrando-se um tanto impacientes. Antes de passar pelo imprescindível processo de discipulado, os artistas já são devidamente anunciados como atração em eventos e, pasmem, em cultos. Como verniz espiritual de baixa qualidade, o testemunho é alçado ao lugar de destaque da reunião. Sem memória Basta relembrar o que aconteceu há alguns anos com os Atletas de Cristo para verificar o risco embutido nesse comportamento da liderança. Até hoje a palavra “cristão” é usada com ironia para caracterizar os atletas tidos como violentos. E, para nossa vergonha, algumas atitudes deles em campo apontam que o pé louco por canelas adversárias parece não ter-se convertido de fato. Há alguns anos, Simony foi vista no palco de um dos grandes eventos evangélicos paulistanos. Acompanhada por cantores e músicos do cenário pop cristão nacional, ela cantou conhecidos hits das FMs salgadinhas (estas, combinando com o cantor quase homônimo, geralmente têm pouco sabor), entremeados de “glórias” e “aleluias”. Contudo, o ostracismo mostrou que a busca de recursos era capaz de provocar nova conversão. De conotação ética, no caso. Simony não foi encontrada pela reportagem da Vidamix. A assessora da cantora, Cláudia, disse que, depois de tanta confusão, Simony decidiu não mais tocar no assunto. “Ela não fala mais sobre isso. Ela deixou isso bem claro no Ratinho (sic). Sobre futebol e religião ela não fala mais”. Toda nudez será castigada? Poucas pessoas devem estar interessadas nos comentários da cantora sobre, por exemplo, o combalido escrete canarinho. Feliz ou infelizmente, o outro assunto é da alçada de toda a família comprada com líquido rubro. O mesmo que alguns incautos (flamenguistas ou não) tentam manchar de negro. Em um dos bate-papos promovidos pelo Universo Online com a cantora, Simony foi inquirida sobre certas contradições entre sua vida religiosa e artística. “Minha religião não tem nada a ver com meu trabalho. A Simony é um produto.” Do alto de sua vasta experiência, aproveitou para criticar a instituição em que os crentes se reúnem. “A igreja tenta sempre mostrar uma coisa que realmente não é. E todos nós somos seres humanos”, afirmou a um internauta. “Tenho muita fé em Deus e acredito muito em Jesus, e sei que ele nunca vai me julgar.” Ao contrário do que muitos poderiam imaginar há algumas décadas, Simony não esteve só nos embates públicos em que apareceu. A mesozóica calipígia Gretchen externou seu apoio. Duro mesmo é imaginar o que alguns irmãos sentem ao contemplar na estante o CD com o título, desculpem, “Piripiri de Jesus”. Ô, glória Darlene Glória é uma das principais musas do cinema nacional. Interpretando a prostituta Geni, na trama nelsonrodrigueana “Toda Nudez Será Castigada”. Dirigido por Arnaldo Jabor, o filme recebeu o “Urso de Prata” no Festival de Cinema de Berlim, em 1973. Na cerimônia de entrega, Darlene usou uma roupa que pertencia a uma feiticeira. Apesar do prêmio e do reconhecimento mundial, a atriz estava arrasada por dentro. Sua irmã havia falecido poucos dias antes. O avião que levava a amiga Leila Diniz também havia explodido nesta época, dilacerando o coração de Darlene.
Além das duas perdas, a atriz estava mergulhada em um mar de idolatria. Consultava com freqüência chefes dos principais terreiros do Rio de Janeiro, e havia “fechado o corpo” por orientação de muy amigos do meio artístico. Apesar de todo o envolvimento com o candomblé e com as drogas (sem trocadilhos), a semente do evangelho plantada na infância da atriz voltou a germinar. Darlene foi resgatada das garras do inimigo, conhecendo a verdadeira glória de se tornar uma filha do Deus Altíssimo. Em Uma Nova Glória (Editora Vida), Darlene desfila as suas mais de duas décadas de andanças com o Senhor. Como acontece com ímpios e santos (literalmente, “separados”), a atriz também enfrentou muitos trechos em que o vale parecia ser deveras profundo. Entretanto, a presença do Pastor fez, e faz, toda a diferença. Mas tudo passa, tudo passará Bem antes de o menudo Rick Martin viver a vida louca (!!), Nelson Ned foi o primeiro artista latino a bater a casa de um milhão de discos vendidos nos Estados Unidos. Isso rolou em 1974, com a canção Happy Birthday, My Darling. No total, o artista já vendeu mais de 40 milhões de discos em 40 países. Das baladas românticas, Nelson passou para as baladas noturnas, sempre regadas a uísque. Hoje, depois da conversão, ele recusa até o título de artista. “Sou um aprendiz de servo”, diz. A trajetória do cantor pode ser conhecida em O Pequeno Gigante da Canção (Editora Vida), lançado também em espanhol. Nelson Ned também foi vítima do questionamento feito por evangélicos quando se lançou nos braços do Mestre. “Muita gente duvidou da minha conversão”, conta. Escaldado e polido, ele preferiu não comentar as atitudes das colegas artistas. “Não quero julgar meu próximo. Não tenho esse direito”, esquivou-se.
No meio da confusão, o cantor utiliza-se de um pouco de surrealismo para ressaltar como pode ser perigoso um julgamento precipitado. “Se hoje à noite, um intelectual vindo da Europa, chamado Saulo de Tarso, fosse ao Programa do Jô e dissesse ‘eu perseguia os cristãos, mas o Senhor me deu uma visão, e agora vivo pregando o evangelho’, tenho certeza de que muitos crentes iriam duvidar”, diz. Faz sentido. No limite Se o apóstolo Paulo não foi entrevistado por Jô Soares, a cantora Baby do Brasil (ex-Consuelo) se encarregou de espalhar as boas novas que contagiaram sua alma. Muita gente vibrou com a entrevista, embora alguns crentes mais escaldados tenham manifestado desconfiança em relação às experiências sobrenaturais da artista. Mal o povo evangélico acabou de celebrar o testemunho público de Baby do Brasil e outra modelo evangélica anunciou que posaria nua novamente. A ciclotimia de testemunhos parece estar cansando os cristãos e enchendo a mídia de gáudio. Basta ler as entrevistas feitas com artistas evangélicos para conferir o grau de cobrança, além da mordacidade onipresente. Esses acontecimentos provocaram um efeito colateral indesejável entre o povo de Deus. Para alguns equivocados, o toque divino passou a ser considerado algo exclusivo para aqueles que andam com a Bíblia sob o braço e têm alta quilometragem na escola dominical. O mau testemunho de artistas e atletas reacendeu a falácia, ainda que velada, do merecimento. Ledo (e ivo) engano. Que coisa mais linda No livro Maravilhosa Graça, Philip Yancey apresenta o significado da palavra graça. Em uma de suas explicações sobre a origem da palavra, o escritor revela que a raiz grega significa “eu me regozijo, estou feliz”. Lembrando-se do diálogo entre o amigo e a prostituta, ele conclui que regozijo e alegria não são, infelizmente, as primeiras imagens que surgem na mente das pessoas quando pensam em igreja. Para muita gente, igreja tornou-se sinônimo de uma lista infinita de dogmas com intenção de fiscalizar a vida de seus freqüentadores. O escritor pondera que parte dessa visão está fundamentada em um conceito errôneo, amalgamado com altas doses de preconceito.
Contudo, Yancey acredita que o comentário da prostituta toca em um ponto fraco da igreja. A preocupação em fugir do inferno é tanta que muitos se esquecem de celebrar a salvação que nos garante vida eterna nos céus. “Outros, justamente preocupados com questões de uma ‘guerra cultural’ moderna, negligenciam a missão da igreja como um porto da graça neste mundo carente de graça”, disse. Mais cheia de graça É provável que os famosos que carregam o epíteto “evangélico” desconheçam o alcance que atitudes coerentes com as Escrituras produziriam no país. Não custa lembrar que o inverso também é verdade. O ibope da roupa suja lavada no programa popularesco do Gugu equivale à freqüência de muitos anos em uma igreja de porte médio. Alguns minutos de observação das expressões utilizadas pelos famosos já são suficientes para verificar a (falta de) profundidade dos ensinos que estão sendo adquiridos (quadro ao lado). Alguns “declaram”, “tomam posse” e “ordenam” com facilidade. “Negar-se a si mesmo”, “santificação” e “fazer a vontade do Pai” não são tão correntes quanto deveriam, já que alguns deles têm demonstrado que a carreira está em primeiro plano. O evangelho vem logo abaixo, sendo muitas vezes resumido a uma espécie de filosofia de auto-ajuda. Em outras comunidades, os artistas enfrentam concorrência com os líderes, ávidos por um holofote ou uma entrevista. Há também igrejas em que os pastores se vangloriam por ser íntimos de artistas e jogadores, aproveitando as ovelhas-celebridades para posar como “papagaios de pirata”. Alguns chegam até a exercer a função de porta-voz, mas não das boas notícias. Por outro lado, parte dos evangélicos range os dentes ao ver Monique Evans, Marcelinho Carioca e outros famosos recitar versículos e afirmar sua fé diante das câmeras. A raiva e o legalismo chegam a tal ponto que, se o Mestre surgisse na frente das telas pedindo que atirasse a primeira pedra quem não tivesse pecado, teria de se abaixar para não ser atingido. Falta graça por parte de quem critica, da mesma forma que vários famosos apresentam uma fé sem consonância com as Escrituras. “Pelos frutos, conhecereis”, diz a Palavra. Quando chegar a hora de o Agricultor fazer a colheita, serão vistos os frutos maduros, ainda ligados à Árvore. Outros, de tão podres, estarão caídos no chão, sendo devorados por pequenos animais, ou simplesmente estarão virando adubo. Fica, entretanto, o alerta bíblico: o vento sopra onde quer. E a maravilhosa graça de Deus também.
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